Em muitas empresas está a surgir um novo foco de tensão: os primeiros profissionais entre os 20 e os 30 e poucos anos já assumem responsabilidade por equipas e avaliam, de forma surpreendentemente dura, o comportamento de colegas da mesma idade. Aquilo que era apontado como a “geração mais difícil” está agora a chegar a cargos de chefia - e alguns desses novos responsáveis julgam os seus pares com mão pesada.
Quando a “geração-problema” passa a ter responsabilidade de equipa
Durante muito tempo, os mais novos foram vistos como quem já não aceita hierarquias clássicas nem a lógica de estar sempre no escritório. Só que um inquérito junto de 625 responsáveis de Recursos Humanos (RH) nos EUA mostra uma viragem: uma fatia relevante das críticas vem, hoje, de pessoas da mesma faixa etária.
"Cerca de 45% dos profissionais de RH inquiridos consideram o grupo etário mais jovem na empresa como o mais difícil de liderar - e muitos deles são apenas ligeiramente mais velhos."
Com isto, a narrativa muda. Já não são apenas chefias mais antigas a apontar falhas de atitude e de estilo de trabalho aos mais novos. Dentro da própria geração abre-se uma fratura entre quem já começou a ganhar experiência de liderança e quem está a dar os primeiros passos na vida profissional.
O que incomoda as chefias jovens nos seus próprios colegas
Em conversas com responsáveis de RH e com jovens líderes de equipa, repetem-se temas muito semelhantes. As acusações soam ao que as gerações anteriores dizem há anos - mas agora são formuladas por pessoas a meio dos 20.
- Baixa tolerância à frustração: espera-se que as tarefas sejam fáceis, com sentido e variadas. Quando o trabalho fica mais penoso, a motivação cai depressa.
- Expectativas muito elevadas: entrada direta com flexibilidade, propósito, progressão rápida - idealmente sem abdicar de um salário estável.
- Disponibilidade para sair rapidamente: em vez de insistir, algumas pessoas preferem trocar de emprego ao fim de poucos meses.
- Evitar confronto em conversa presencial: a crítica é enviada por chat, em vez de ser discutida cara a cara.
- Fronteira difusa entre vida pessoal e trabalho: a atenção constante à work-life balance aparece, muitas vezes, pouco tempo após a integração.
Vários jovens responsáveis referem que vivem num vaivém entre empatia e irritação. Por um lado, compreendem a procura de flexibilidade e de significado. Por outro, têm de garantir prazos e entregar resultados.
O conflito geracional interno na liderança jovem: “exigente, apesar de ser novo”
Muitas pessoas recentemente promovidas a líderes ainda pertencem, formalmente, ao grupo mais jovem, mas têm apenas mais alguns anos de experiência. Elas próprias passaram por um início “à antiga”: horas extra, pouca voz nas decisões e uma curva de aprendizagem dura. Isso influencia a forma como lideram.
"Quem teve de se esforçar muito em estágios e períodos experimentais tende a exigir a mesma robustez de quem chega - e reage com irritação quando essa exigência é recusada."
Daqui resulta uma situação paradoxal: colaboradores mais velhos acusam os mais novos de falta de garra, enquanto as novas chefias jovens desejam ver uma postura mais profissional nos seus próprios colegas. A linha de conflito deixa de estar apenas entre gerações e passa a atravessar o interior do mesmo grupo etário.
Porque é que a pressão sobre chefias jovens é especialmente alta
Quem lidera cedo acaba frequentemente numa posição ingrata. De cima, chegam metas e indicadores; de baixo, exigem-se flexibilidade, reconhecimento e sentido. Sem comunicação clara, o risco de exaustão aumenta rapidamente.
Campos de tensão típicos incluem:
- Liderar “de igual para igual”, mas ainda assim definir regras e orientações claras
- Permitir teletrabalho e horários flexíveis sem comprometer a rotina e a coordenação da equipa
- Dar elogios e feedback sem transformar tudo em coaching permanente
- Aceitar erros e, ao mesmo tempo, manter padrões de desempenho elevados
Muitos admitem que a passagem de “amigo da equipa” para pessoa responsável pesa mais, emocionalmente, do que as próprias tarefas técnicas.
Porque é que a reputação dos mais novos é tão má - e o que está por trás
À primeira vista, os resultados do inquérito deixam o grupo mais jovem mal na fotografia. Ainda assim, grande parte das queixas reflete uma mudança que já se vinha a desenhar.
Os trabalhadores mais novos:
- recusam com mais frequência horas extra não pagas,
- colocam a saúde mental e a vida pessoal num patamar superior,
- querem ser avaliados mais por resultados do que por presença,
- procuram propósito e margem de decisão, em vez de apenas estatuto.
Muitas organizações adaptaram-se apenas a meio caminho. Modelos flexíveis aparecem em apresentações, mas no dia a dia continua a dominar a lógica antiga: estar presente, “aguentar” e funcionar. Quando isso se cruza com expectativas diferentes, os atritos tornam-se quase inevitáveis - inclusive entre pessoas da mesma idade.
O que as empresas podem aprender com o conflito interno
Tensões dentro do mesmo grupo etário parecem, à partida, apenas um problema, mas também podem servir de alerta. Quando se escuta com atenção, surgem padrões que podem ser aproveitados de forma construtiva.
| Área problemática | Possível reação na empresa |
|---|---|
| Chefias jovens irritadas | Formação específica em liderança, mentoria, clareza sobre o papel e responsabilidades |
| Frustração de quem está a começar | Integração mais bem estruturada, percursos de carreira transparentes |
| Rotatividade elevada | Conversas de feedback regulares, modelos de tarefas mais flexíveis |
| Expectativas pouco claras | Objetivos bem definidos, regras registadas por escrito |
Ao levar a sério os dois lados, é possível canalizar a energia dos mais novos, em vez de a deixar perder-se em conflitos permanentes.
Como as chefias jovens podem gerir o equilíbrio
Para esta nova vaga de líderes, compensa olhar com intenção para o próprio estilo. Há três pontos que voltam a surgir quando as equipas funcionam bem:
- Regras transparentes: explicar sem rodeios o que conta - resultados, tempos de resposta, disponibilidade. Quanto menos zona cinzenta, menos discussões.
- Cultura de feedback consistente: conversas curtas e frequentes, em vez de um grande momento anual. Elogios e críticas devem ser tratados cedo.
- Flexibilidade limitada, mas real: quando teletrabalho, semana de quatro dias ou horários flexíveis são viáveis, não devem existir apenas “no papel”.
Este tipo de enquadramento reduz mal-entendidos. Muitos choques não têm tanto a ver com preguiça ou dureza, mas com noções diferentes do que é justo.
Termos que aparecem muito - e o que significam
Na discussão, há expressões que regressam vezes sem conta e que nem todos interpretam da mesma forma:
- Quiet Quitting: a pessoa faz exatamente o que está no contrato - nem menos, nem mais. Para alguns mais velhos, pode parecer retraimento; para muitos mais novos, é uma fronteira saudável.
- Work-life balance: não é um termo de “bem-estar” superficial, mas a tentativa de organizar o trabalho sem o tornar, de forma contínua, uma ameaça à saúde e à família.
- Purpose: o desejo de que o trabalho signifique mais do que apenas ganhar dinheiro - por exemplo, através de impacto visível ou participação em decisões.
Desvalorizar estas palavras como modas é perder uma oportunidade. Em particular, chefias jovens podem traduzi-las para o terreno: regras claras, projetos e formatos de conversa que façam sentido para todas as gerações na empresa.
O conflito interno no grupo etário mais jovem mostra, acima de tudo, uma realidade: a mudança no mundo do trabalho já está em curso, mas ainda avança aos solavancos. O facto de chefias jovens avaliarem criticamente os seus próprios colegas não prova um “falhanço de uma geração”; aponta, isso sim, para o quão diferentes são as expectativas em relação ao trabalho - mesmo entre pessoas separadas por poucos anos. Quem levar isto a sério consegue construir estruturas de que, no fim, todos beneficiam.
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